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Linhas de bairro em Belo Horizonte sobem quase o dobro da inflação desde 2018

Tarifa das linhas circulares e alimentadoras de BH saltou 90% em oito anos, quase o dobro do reajuste das linhas convencionais. Veja os números completos.

Publicado em às 10h05 · 7 min de leitura
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Quem pega ônibus em Belo Horizonte, Minas Gerais, paga R$ 6,25 pela tarifa das linhas convencionais e do MOVE a partir de 1º de janeiro de 2026. O valor é 50 centavos maior que em 2025, um reajuste de 8,7% autorizado pela Superintendência de Mobilidade do município (Sumob-BH). Com a mudança, a capital mineira ultrapassou São Paulo, Rio de Janeiro e Salvador e passou a ocupar a segunda posição no ranking nacional de tarifas mais caras, atrás apenas de Florianópolis.

Para quem depende do coletivo todos os dias, a conta pesa rápido. Um passageiro que faz duas viagens por dia, de segunda a sexta, gasta R$ 275 por mês só para ir e voltar do trabalho — o equivalente a mais de 37 horas de um salário mínimo, quase uma semana inteira de expediente. Mais adiante nesta reportagem, mostramos essa conta capital por capital.

BH é a 2ª capital com a passagem mais cara do país

O Faixa Exclusiva reuniu a tarifa de ônibus cobrada em todas as 27 capitais brasileiras. Florianópolis segue na liderança, com passagem de R$ 7,70 em dinheiro ou Pix (R$ 6,20 para quem usa o cartão cidadão). Belo Horizonte vem em seguida, com R$ 6,25, à frente de Curitiba (R$ 6,00) e Salvador (R$ 5,90). Na outra ponta, Porto Velho tem a tarifa mais barata do país, R$ 3,00, depois de um corte pela metade decretado em março de 2025.

A média entre as 27 capitais é de R$ 4,85. A tarifa de BH está quase 29% acima dessa média — mais que o dobro do valor cobrado em Rio Branco, Macapá ou Porto Velho. Fortaleza teve o maior salto percentual do país em 2026, de 20%, enquanto Curitiba, Porto Alegre, Goiânia e outras seis capitais não tiveram reajuste este ano.

Gráfico com o ranking da tarifa de ônibus nas 27 capitais brasileiras em 2026

Tarifa cheia de ônibus (sem integração) nas 27 capitais brasileiras. Cidades com mais de um valor de tarifa foram representadas pelo preço da linha convencional/principal.
Capital (UF) Tarifa Situação em 2026
Florianópolis (SC) R$ 7,70 / R$ 6,20* Reajuste de 11,6% em 1º/jan
Belo Horizonte (MG) R$ 6,25 Reajuste de 8,7% em 1º/jan
Curitiba (PR) R$ 6,00** Sem reajuste em 2026
Salvador (BA) R$ 5,90 Reajuste de 5,3% em 5/jan
Boa Vista (RR) R$ 5,50 Sem reajuste; passe livre estudantil em fev.
Brasília (DF) R$ 5,50*** Sem reajuste desde 2025
Fortaleza (CE) R$ 5,40 Reajuste de 20% em 1º/jan (maior do país)
São Paulo (SP) R$ 5,30 Reajuste de 6% em 6/jan
João Pessoa (PB) R$ 5,20 Sem reajuste na capital em 2026
Rio de Janeiro (RJ) R$ 5,00 Reajuste de 6,4% em 4/jan
Porto Alegre (RS) R$ 5,00 Sem reajuste em 2026
Cuiabá (MT) R$ 4,95 Sem reajuste desde 2022
Campo Grande (MS) R$ 4,95 Sem reajuste em 2026
Natal (RN) R$ 4,90 Sem reajuste em 2026
Vitória (ES) R$ 4,90 Sem reajuste em 2026
Belém (PA) R$ 4,60 Sem reajuste em 2026
Manaus (AM) R$ 4,50 Reajuste barrado pela Justiça em 2025
Aracaju (SE) R$ 4,50 Tarifa congelada
Goiânia (GO) R$ 4,30 Congelada desde 2019
Recife (PE) R$ 4,30 Sem reajuste em 2026
São Luís (MA) R$ 4,20 / R$ 3,70 Sem reajuste em 2026
Maceió (AL) R$ 4,00 Sem reajuste em 2026
Teresina (PI) R$ 4,00 Sem reajuste desde 2020
Palmas (TO) R$ 3,85 Mantida por decisão de 2026
Macapá (AP) R$ 3,70**** Reajuste em discussão
Rio Branco (AC) R$ 3,50 Sem reajuste desde 2022
Porto Velho (RO) R$ 3,00 Caiu pela metade em mar/2025
Fonte: prefeituras, secretarias estaduais de transporte e cobertura da imprensa local. Coleta em agosto de 2026 — valores podem mudar ao longo do ano.
* dinheiro/Pix / cartão cidadão. ** R$ 3,00 aos domingos e feriados. *** tarifa mais alta, para viagens longas e metrô; há valores menores para trajetos curtos. **** tarifa cheia é R$ 4,55, com subsídio municipal de R$ 0,85.

Como a tarifa de BH mudou nos últimos oito anos

A trajetória da tarifa de Belo Horizonte ajuda a entender o tamanho do reajuste de 2026. Antes de dezembro de 2018, a passagem das linhas convencionais custava R$ 4,05. Naquele mês, ela subiu para R$ 4,50 e ficou estável por mais de quatro anos. Em abril de 2023, chegou a R$ 6,00 — mas durou pouco: três meses depois, um subsídio da Prefeitura derrubou o valor de volta para R$ 4,50. Dali em diante, os reajustes voltaram a se acumular: R$ 5,25 no fim de 2023, R$ 5,75 em janeiro de 2025 e, agora, R$ 6,25.

Gráfico da evolução da tarifa de ônibus em Belo Horizonte entre 2018 e 2026

Evolução da tarifa cheia (sem descontos) das linhas convencionais/MOVE e das linhas circulares/alimentadoras de Belo Horizonte, de 2018 a 2026.

Linhas de bairro sobem quase o dobro da inflação

O detalhe que passa despercebido nesse histórico é o das linhas circulares e alimentadoras — as que atendem bairros mais afastados e fazem a conexão com o sistema principal. Em dezembro de 2018, essas linhas custavam R$ 3,15, R$ 1,35 mais barato que as convencionais. Em 2026, essa diferença caiu para apenas R$ 0,25: a tarifa das linhas de bairro foi para R$ 6,00, um salto de 90% em oito anos.

No mesmo período, a inflação oficial medida pelo IPCA acumulou cerca de 50%, segundo dados do IBGE. Ou seja: enquanto a tarifa das linhas convencionais cresceu abaixo da inflação (39%, puxada para baixo pelo corte de 2023), a das linhas de bairro avançou bem acima dela. Na prática, o desconto que existia para quem mora mais longe do centro foi encolhendo ano após ano — e quase desapareceu.

Quanto isso pesa no bolso

Com o salário mínimo de 2026 fixado em R$ 1.621 — R$ 7,37 por hora, conforme o Decreto 12.797/2025 —, um trabalhador que recebe um salário mínimo e faz duas viagens de ônibus por dia em Belo Horizonte precisa de 37 horas de trabalho por mês só para pagar o transporte. Isso equivale a quase 17% do salário mínimo, ou quatro dias e meio de expediente de oito horas.

Quem mora em Florianópolis, a capital com a passagem mais cara do país, chega a gastar quase 21% do salário mínimo com ônibus. Em Porto Velho, a mais barata, esse percentual cai para cerca de 8%.

37,3h
de trabalho/mês em BH (≈17% do mínimo)
46,0h
de trabalho/mês em Florianópolis (≈21%)
17,9h
de trabalho/mês em Porto Velho (≈8%)

O reajuste também chegou aos ônibus metropolitanos

O aumento não ficou restrito à tarifa municipal. As passagens do transporte metropolitano da Grande BH, geridas pelo Departamento de Estradas de Rodagem de Minas Gerais (DER-MG), subiram 8,93% a partir de 9 de janeiro de 2026 — reajuste maior que o aplicado no ciclo anterior, de 6,49%. O sistema tem 640 linhas e liga a capital a cidades como Contagem, Sabará e Ribeirão das Neves, somando cerca de 400 mil passageiros por dia útil.

Segundo o Governo de Minas Gerais, a maior parte das tarifas metropolitanas passou a variar entre R$ 8,95 e R$ 32,90, dependendo da distância percorrida — nos extremos do sistema, a linha mais barata (Brasília/Terminal Sarzedo) custa R$ 6,10, e a mais cara, que liga BH ao Instituto Cultural Inhotim, chega a R$ 62,45. O reajuste geral ficou bem acima da inflação recente da própria Região Metropolitana de Belo Horizonte, de 3,81% nos 12 meses até novembro de 2025 — mais que o dobro.

A Prefeitura de BH e o Governo de Minas afirmam que os reajustes seguem cláusulas contratuais e cálculos técnicos vinculados ao equilíbrio financeiro dos sistemas de transporte. Para o passageiro, o efeito prático é o mesmo: a cada início de ano, uma fatia maior do orçamento passa a ser reservada só para chegar ao trabalho.

Como fizemos esse levantamento

Os valores das 27 capitais foram coletados em agosto de 2026 junto a prefeituras, secretarias estaduais de transporte e cobertura da imprensa local; a data e o percentual de cada reajuste, quando disponíveis, aparecem na tabela. O cálculo de horas de trabalho considera duas viagens por dia, 22 dias úteis por mês e o valor-hora do salário mínimo nacional de 2026 (R$ 7,37, conforme o Decreto 12.797/2025). A comparação histórica usa o IPCA acumulado divulgado pelo IBGE, ano a ano, entre janeiro de 2019 e junho de 2026. Esta reportagem será atualizada sempre que houver novo reajuste em alguma das capitais cobertas.

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Quem escreveu

Isaac Daniel

Isaac Daniel Garcias é gestor de conteúdo digital e formado em Gestão de Trânsito e Mobilidade Urbana. Atua em plataformas online voltadas ao transporte público e à mobilidade urbana, produzindo informações claras e acessíveis para quem depende do deslocamento diário nas cidades brasileiras.

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